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Um dia incrível na Bienal do Livro

Daniela Senador

Na última sexta-feira, dia 10 de agosto, levei meu filho Martim e a sua babá, Luciana, para a Bienal do Livro. Estava ansiosa pelo passeio, pois tinha certeza de que os dois iriam se divertir entre cenários, personagens, pilhas de livros – e muitas, muitas pessoas! Não foi diferente.

Formando leitores

Procuro estimular o gosto do Martim pelos livros desde os primeiros meses de vida. E sempre tive a sorte de a família e os amigos partilharem deste interesse. Os livros sempre o acompanharam no banho, nas refeições, nas nossas viagens e se tornaram companheiros de todas as horas. O primeiro personagem pelo qual ele se afeiçoou foi Gildo, o elefantinho criado pela ilustradora Silvana Rando. “Quem levou o Gildo para a escola, filho?” Ele respondia: “o au-au”.

Na sala, temos uma estante cujos dois primeiros andares são destinados aos seus livros. No início, ora ele os tirava um a um, fazendo pilhas e bagunça, ora se concentrava na leitura. Eu sempre deixei Martim fazer a sua bagunça de livros, pois, na minha concepção, era assim que estava criando vínculo afetivo com eles. E quantas vezes ouvi: “ele não pode tirar todos os livros da estante de uma vez”, “ele precisa aprender a guardá-los”. Na pomposa Ateneu, em Buenos Aires, mãe e filho levaram bronca. Mas, no auge do seu primeiro ano de vida, nada me convenceu: este primeiro contato não poderia ser tolhido. Martim cresceu, seus livros cresceram, e passou a alcançar o terceiro nível de livros na estante. E a babá, meticulosa na arrumação, me disse certa vez: “Martim tem 117 livros!”.

Procuro estimular também o gosto da Luciana pelos livros desde que começou a trabalhar conosco. Ela foi sincera ao compartilhar que tinha preguiça de ler livros longos. Mas, se revelou desde o início, uma envolvente contadora de histórias. Interpreta cada livro ao Martim com muito entusiasmo. E, ao saber que eu conhecia muitos editores e tinha facilidade para adquirir livros, me pediu que procurasse três de seu interesse. Estavam fora de catálogo, mas disponíveis na Estante Virtual, cada um por cerca de quinze reais. Comprou os três de uma vez só! Numa leva de livros que doei, ficou com um sobre a Mesopotâmia, que passou a ler no almoço, espontaneamente. E, por estímulo da nossa família, começou a estudar Pedagogia. “Eu não lia muito, mas convivendo com vocês, estou gostando mais de ler”, disse. E estava tão animada quanto eu para ir à Bienal.

Entre cenários, personagens e pilhas de livros

Martim permaneceu mais de uma hora no estande da Brinque-Book. O Macaco Danado, um dos seus livros preferidos comprados pela vovó Carol e lido também pela professora na escola, estava lá. Mas não enxergou mais nada depois que se deparou com o aniversário da Lontrinha em Parabéns a Você. Foi preciso que eu escondesse este livro discretamente para que tivesse contato com outros (o que consegui depois de sucessivas tentativas frustradas). Luciana contou várias histórias e ele as ouviu atentamente. Entre lobos, pavões, jacarés e macacos, foi demonstrando interesse por aqueles que, depois, levei para a sua biblioteca.

Martim também se divertiu muito organizando livros num dos estandes promocionais. Tirava livros de um lado, colocava do outro e acertava a pilha, com bastante concentração. Olhem só, onde está o menino que bagunçava os livros? E como ainda considero importante o livro físico neste processo do despertar do gosto, que inclui o manuseio, a (des)organização, o cheiro. Martim correu entre personagens, vestiu cartola, cumprimentou autores fantasiados, apertou o rabo da Galinha Pintadinha e pegou duas vezes a fila para ver a Masha e o Urso. Neste mesmo dia, comeu batata frita pela primeira vez – e adorou!

   

Nós três tivemos oportunidade de visitar estandes incríveis de clientes da Soneto (como é bom trabalhar com aquilo em que acreditamos). O da V&R Editoras e o da Plataforma 21 se tornaram um parque de diversões – Martim abriu gavetas, vestiu cartola e vibrou quando viu O Livro da Selva Selvagem, um de seus favoritos. No fim, desfilou com a sacola de livros do Snoopy pelos corredores. Curtimos também o estande da Livraria Martins Fontes Paulista, o das editoras SESI-SP e SENAI-SP e prestigiamos a Editora Edebê Brasil, presente no credenciamento. No meio tarde, era inviável circular entre tantas pessoas.

Leitores e leitores potenciais

“Nós vivemos num país de não leitores”. Quantas vezes ouvimos esta frase, baseada no resultado da última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, para justificar a crise evidente que assola o mercado editorial brasileiro. É uma constatação triste. No entanto, embora seja um dos fatores que contribui para o baixo consumo de livros no Brasil, não é o único. E também não pode se tornar álibi para legitimar a ausência de iniciativas transformadoras – seja o estímulo pelo gosto da leitura entre aqueles com quem convivemos, seja a estratégia de atuação de editoras e players do próprio mercado. Existem leitores potenciais no Brasil que hoje desconhecem o prazer da leitura por falta de estímulo durante o seu processo de formação. Eu mesma tenho ao meu lado pessoas que estão descobrindo, dia após dia, o gosto pelos livros. Estandes promocionais estavam lotados, pessoas carregavam malas de livros, caminhar à tarde tornou-se um desafio. E temos aí uma amostra de leitores e leitores potenciais que são um exemplo de uma transformação possível se iniciada dentro de casa. Eu acredito neste processo de formação. Eu acredito que cada um de nós tem a sua parcela de responsabilidade para reverter esses números. Nenhuma cobrança tardia faz sentido sem esta construção diária, sem esta atribuição de valor desde a primeira infância.

– Filho, aonde você foi sexta?

– Na Bienal!

– E o que você viu?

– Livros!

 

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