Blog

O consumo de cultura nas capitais brasileiras

Daniela Senador

No intuito de compreender cada vez mais os interesses e o comportamento das pessoas que residem nas capitais brasileiras em relação ao consumo de cultura, participamos ontem, dia 22/10, da apresentação de resultados de uma das últimas pesquisas nesta direção. O evento foi realizado, gratuitamente, na sede da Aberje – Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, em São Paulo. A pesquisa Cultura nas Capitais foi conduzida pela consultoria JLeiva Cultura e Esportes em parceria com o Datafolha e apresentada por Ricardo Meirelles. Foram feitas 10.630 entrevistas em 12 capitais – cerca de 600 entrevistas em cada -, considerando todas as regiões brasileiras, com foco nos hábitos de consumo de cultura das pessoas.

Estas entrevistas foram realizadas tête-à-tête e a elas se somaram oito grupos focais nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. O roteiro foi composto por 50 perguntas agrupadas em 20 categorias, sendo eles “acesso e interesse”, “prática e interesse”, “uso do tempo livre”, “diversidade e público potencial”, “por que vai?”, “doações”, “patrocínio”, “por que não vai?”, “como escolhe a programação?”, “com quem vai?”, “gratuidade”, “políticas públicas”, “cultura e tecnologia”, “música”, “audiovisual”, “festas populares”, “museus”, “espaços culturais” e “turismo”.

Confira algumas das principais constatações da pesquisa, que vale a pena manter no radar:

  • nas horas vagas, 32% dos entrevistados se dedicam às chamadas atividades de mídia – acesso à TV (pessoas acima de 60 anos), e à internet e ao celular (pessoas mais jovens) – e 24%, às atividades culturais, entre as quais se destaca leitura;

 

  • 68% dos entrevistados mencionam livros como as atividades mais realizadas nos últimos 12 meses – a maior parte são livros não didáticos, mas entre eles estão a bíblia e outros livros religiosos, lidos em diversas plataformas, incluindo celular e e-readers – e 64% cinema;

 

  • as demais atividades mais realizadas nos últimos 12 meses são realizadas fora de casa e destacam-se shows (42%), festas populares (42%), feiras de artesanato (40%), bibliotecas (39%) como principais (é interessante observar que as respostas foram agrupadas em categorias, mas que, muitas vezes, estas categorias ganham significados diferentes para os entrevistados e elas acabam reunindo manifestações e/ou instituições culturais diferentes);

 

  • grau de escolaridade e classificação econômica segundo a Abep – Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa influenciam diretamente o consumo de cultura, uma vez que entrevistados com ensino superior e pertencentes às classes A e B consomem mais do que os outros;

 

  • adolescentes vão mais a cinema e a bibliotecas, e livros aparecem em terceiro lugar;

 

  • mulheres mostram interesse maior do que os homens em consumir cultura, mas não conseguem transformar em acesso efetivo às atividades culturais;

 

  • o consumo de cultura cai entre os casados e casais com filhos, e uma hipótese levantada pelos pesquisadores é que permanecer em casa é mais fácil do ponto de vista logístico e financeiro, pois foram realizados grupos focais com mulheres de comunidades, que moram longe do centro, e fazer atividade cultural é algo muito especial e, para elas, é impensável fazer sem os filhos e, aí, entram custos, como os de transporte e alimentação;

 

  • pessoas não sabem o que têm dentro de um museu e só descobriram quando eram mostradas fotografias durante as entrevistas;

 

  • não basta dar ingresso gratuito, é preciso um trabalho educativo anterior, aspecto que comprova que são diversas variáveis que influenciam o consumo de cultura (a Fundação Roberto Marinho, apoiadora da pesquisa, presenteou entrevistados com mais de quatro mil ingressos para eventos em São Paulo e Rio de Janeiro e menos de 4% os utilizaram);

 

  • em cidades onde as pessoas vão muito a festas populares, a dança também é bastante mencionada, ou seja, estão interconectadas;

 

  • em Brasília, a frequência a bibliotecas é maior do que em outras capitais por causa dos “concurseiros”, e a de circos também, pelo espaço para montagem;

 

  • a disponibilidade de salas de cinema influencia também na frequência;

 

  • em Belém (PA), apesar de a população ter mais baixo nível de escolaridade, a frequência a museus se destaca, além de impressionar o consumo de cultura pelos adolescentes;

 

  • a pesquisa revela, segundo Ricardo Meirelles, que “existem várias São Paulos”, pois moradores do centro de São Paulo e da Zona Oeste são os que mais consomem cultura, enquanto os da Zona Leste estão abaixo da média nas categorias festas populares e Carnaval, ainda que 91% dos entrevistados nesta região destaquem jogos;

 

  • sertanejo (37%) e MPB (27%) são os ritmos preferidos pelos entrevistados, e são seguidos por música gospel (21%);

 

  • segundo Ricardo Meirelles, a pesquisa confirma o mito de que o Brasil é um país musical, mas os resultados obtidos levam ao questionamento da imagem do Brasil vendida no exterior como o país do samba e do Carnaval, pois, na visão dele, seria o país do sertanejo e das festas juninas haja vista as estatísticas de consumo das capitais (cada pessoa tem a sua própria classificação de música e isto pode enviesar os resultados);

 

  • funk é o som dos adolescentes e MPB e samba o som das pessoas acima de 60 anos, mas, o curioso, é que o sertanejo se mantém estável entre todas as faixas etárias;

 

  • rádio e YouTube se destacam como as principais plataformas para ouvir e/ou ver música (em Belém, observou-se que muita gente grava músicas e as vendem em pendrives);

 

  • TV (47%), redes sociais (44%), boca a boca (32%) e internet (26%) são as principais fontes de informação sobre cultura e o WhatsApp (83%) se destaca entre as principais redes sociais utilizadas;

 

  • adolescentes utilizam o YouTube como principal plataforma de informação sobre cultura;

 

  • entre os entrevistados acima de 60 anos estão o WhatsApp (65%), o Facebook (41%), YouTube (27%);

 

  • temas que as pessoas mais acessam nas redes sociais nas mídias sociais e nos blogs – música, filmes e séries, arte e cultura, moda e beleza, viagem e lazer;

 

  • perguntou-se para os entrevistados quem mais patrocina cultura na sua capital para identificar as marcas mais lembradas e as que se destacaram em peso foram as dos bancos – Banco do Brasil (6%), Itaú (5%), Caixa (4%), Bradesco (4%) e Santander (1%); além dos bancos, têm relevância Petrobrás (5%) e Globo (4%).

A pesquisa na íntegra pode ser acessada no site www.culturanascapitais.com.br, onde é possível realizar filtros de acordo com os interesses. É fonte imprescindível para pesquisas e trabalhos analíticos de diversas naturezas.

tags:

  • aberje
  • atividades culturais
  • comportamento
  • consumo de cultura
  • cultura